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São João Eudes · Uma herança para a Igreja

Doutor
da Igreja?

Compartilhar a riqueza de uma vida e de um ensinamento.

O dossiê da causa do doutorado de São João Eudes: sua inspiração, sua história e as pessoas que a promoveram.

Estátua de São João Eudes com os Corações de Jesus e de MariaJoão Eudes · 1601–1680

Editorial

Um tesouro espiritual
a compartilhar

A Congregação de Jesus e Maria e a Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, conscientes de terem recebido um tesouro espiritual para toda a Igreja, apresentaram a causa do doutorado de seu fundador, São João Eudes (1601–1680). Sua doutrina está contida nos 13 volumes de suas Obras Completas.

Acreditamos que o caminho desenvolvido por São João Eudes para acompanhar a experiência cristã pode oferecer um apoio importante à vida dos fiéis e ao anúncio do Evangelho de Cristo no mundo contemporâneo. João Eudes viveu no início da modernidade, quando o mundo mudou profundamente sua maneira de perceber a realidade e de se situar nela. Pensemos nas inúmeras transformações do século XVII, com Copérnico e Descartes e o nascimento das ciências modernas, as explorações ocidentais em todos os continentes e a expansão missionária para o Canadá e a Cochinchina. Foi também o tempo de uma passagem decidida para a interioridade, uma migração para o coração como lugar essencial do ser, onde se realiza a busca da verdade. Nesse contexto, São João Eudes e muitos de seus contemporâneos procuraram maneiras de expressar e acompanhar a experiência cristã. Bérulle, Olier, Vicente de Paulo e tantas outras belas figuras de santidade foram artífices de uma nova evangelização. No início do século XX, o padre Bremond chamou essa renovação espiritual e apostólica de Escola Francesa de Espiritualidade, cuja marca permanece fecunda na Igreja universal.

Desejamos que sua doutrina seja mais amplamente oferecida aos fiéis de hoje, pois queremos compartilhar nossa herança, para que toda a Igreja se beneficie da inspiração que animou a pessoa, a ação e as obras de nosso fundador. Que o processo de reconhecimento chegue a seu termo, para a maior glória de Deus e o bem da Igreja.

Jean-Michel Amouriaux, Editorial do dossiê original

A causa do doutorado

Por que São João Eudes
Doutor da Igreja?

Em todos os tempos, a Igreja oferece aos fiéis o testemunho de homens e mulheres que podem guiá-los no seguimento de Cristo, na compreensão da fé e na vida cristã. Assim, ao longo dos séculos, a Igreja concedeu o título de “Doutor da Igreja” a grandes santos e santas cuja vida e ensinamento constituem uma riqueza e uma referência para todos os batizados. Nas últimas décadas, receberam esse título figuras tão diferentes como Santa Catarina de Sena, Santa Teresinha de Lisieux, São João de Ávila e Santa Hildegarda de Bingen.

Nessa perspectiva, os Eudistas, as Irmãs de Nossa Senhora da Caridade e as Irmãs do Bom Pastor, assim como as congregações femininas herdeiras de São João Eudes, propuseram à Conferência dos Bispos da França que apoiasse a causa de São João Eudes como Doutor da Igreja.

Após numerosas consultas à Igreja em diferentes países, os Eudistas, juntamente com as congregações da mesma família espiritual e dioceses francesas, desejam submeter ao discernimento da Igreja a causa do doutorado de São João Eudes. Por sua experiência missionária, sua pregação e sua preocupação com a formação dos padres, João Eudes contribuiu, em tempos difíceis de rupturas e mudanças, para a renovação da vida cristã. Por meio da imagem forte do Coração, abriu um caminho espiritual concreto no qual cada batizado, seguindo Maria, é convidado a “formar Jesus em si”. A vida, o testemunho, os escritos e a herança de São João Eudes, padre missionário e mestre de vida cristã na renovação católica do século XVII, relacionam-se, em muitos aspectos, com os desafios de uma nova evangelização e da renovação da vida batismal.

Além dos méritos reconhecidos por ocasião de sua canonização, a prática e os ensinamentos pastorais de São João Eudes, destinados a fazer “viver e reinar Cristo” em cada batizado, e sua eminente doutrina sobre o Coração de Jesus e o Coração de Maria favorecem um reconhecimento mais amplo por parte da Igreja, para o bem de todo o povo cristão.

Cadernos Eudistas · 27

Nos caminhos do doutorado

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3 de dezembro de 2016 · Marco histórico

Uma audiência com o papa Francisco

Dom Luc Crépy, então bispo de Le Puy-en-Velay, encontrou-se com o papa Francisco para tratar da possibilidade de reconhecer São João Eudes como Doutor da Igreja. Estava acompanhado do padre Camilo Bernal, então superior geral dos Eudistas, e da irmã Marie-Françoise Le Brizaut.

O encontro abordou a influência de João Eudes e a contribuição que sua espiritualidade e sua doutrina poderiam oferecer a toda a Igreja.

Uma testemunha da misericórdia

Uma fé que se torna serviço

A contemplação dos Corações de Jesus e Maria alimenta em João Eudes uma atenção concreta às pessoas. Seu compromisso com os doentes, suas missões no campo e seu cuidado com a formação dos padres expressam o mesmo desejo: dar a conhecer o amor de Deus.

No retrato apresentado por Dom Michel Dubost, a misericórdia une sua oração, sua pregação e suas fundações.

Ler o retrato escrito por Dom Michel Dubost ↗

Da formação à irradiação

Uma vida, fundações,
uma herança

Marco 01

Formação

João Eudes nasceu em 14 de novembro de 1601, o mesmo ano de Luís XIII, em Ri, perto de Argentan, na Normandia. Após concluir os estudos de humanidades no colégio dos jesuítas de Caen, entrou, em 23 de março de 1623, na recém-fundada Sociedade do Oratório de Jesus da França, na rue Saint-Honoré, em Paris, onde foi acolhido pelo fundador, cardeal Pierre de Bérulle. Ordenado padre em 20 de dezembro, celebrou sua primeira missa no dia 25 daquele mês, Natal, antes de prosseguir os estudos teológicos na comunidade oratoriana de Aubervilliers.

Marco 02

Fundação da Congregação de Jesus e Maria

De volta à Normandia em 1627, foi inicialmente enviado à região de Vrigny, na diocese de Sées, atingida pela peste. Escapou da epidemia e descobriu o abandono material e espiritual em que vivia a população rural. Dessa constatação nasceu uma prioridade para seu apostolado: para recristianizar a sociedade, era necessário formar padres capazes de conduzir uma paróquia rural ou pregar missões populares. Em sintonia com as orientações do Concílio de Trento sobre a formação do clero, deixou, em 19 de março de 1643, a comunidade do Oratório de Caen, da qual era superior, para abrir um seminário na mesma cidade. Reuniu sete padres experientes, missionários capazes de se tornar formadores, e fundou, em 25 de março daquele ano, com a aprovação do bispo de Bayeux, uma sociedade de padres dedicada tanto à formação dos seminaristas e do clero quanto à pregação popular nas paróquias: a Congregação de Jesus e Maria, conhecida como os Eudistas. Ainda em vida do fundador, os seminários eudistas se expandiram de Caen para Coutances, Lisieux, Rouen, Évreux e Rennes.

Marco 03

Fundação da Ordem de Nossa Senhora da Caridade

Desde 1634, João Eudes pensava em estabelecer em Caen um “refúgio” para mulheres que desejavam deixar uma vida de libertinagem ou a prostituição. O projeto se concretizou em 1641, com a ajuda de membros da Companhia do Santíssimo Sacramento e a criação de Nossa Senhora do Refúgio. Algum tempo depois, decidiu confiar essa obra a religiosas e, com a colaboração das visitandinas de Caen, criou um instituto que se tornaria a Ordem de Nossa Senhora da Caridade. A ordem foi reconhecida em 8 de fevereiro de 1651 pelo bispo de Bayeux, Dom Molé, e por uma bula do papa Alexandre VII, em 2 de janeiro de 1666. Em vida do fundador, além do mosteiro de Caen, foram estabelecidos os de Rennes, em 1673, Hennebont e Vannes, em 1676, na Bretanha.

Marco 04

Pregação

Até sua morte, em 19 de agosto de 1680, em Caen, João Eudes havia pregado 110 missões entre 1632 e 1676, das quais noventa na Normandia, principalmente na diocese de Coutances. Essas missões populares buscavam reacender a fé e o fervor católico nas paróquias. Cada uma durava cerca de um mês e meio. As manhãs eram dedicadas à pregação; as tardes, à catequese ou às conferências. Além dessas atividades, o missionário atendia as confissões da população.

João Eudes também pregou diante da rainha-mãe Ana da Áustria, que muito o estimava. Luís XIV, depois de apoiar a fundação da Congregação de Jesus e Maria, passou a suspeitar que o santo se opunha à sua política galicana, entre 1674 e 1679. Cabe ainda destacar a atividade litúrgica e literária de João Eudes em favor do culto aos Corações de Jesus e Maria: em 1648, durante uma missão em Autun, fez celebrar, com a aprovação do bispo, a missa e o ofício do Coração de Maria, cuja estrutura havia composto. Em 1672, fez o mesmo em Caen e em outros quatro seminários para a missa e o ofício do Coração de Jesus.

Marco 05

Veneração

Após sua morte, o corpo de João Eudes foi sepultado na igreja dos Santíssimos Corações de Jesus e Maria do seminário eudista de Caen. Em 1810, seus restos mortais foram transferidos para Notre-Dame-de-la-Gloriette. Desde 6 de março de 1884, encontram-se na cripta sob o transepto sul dessa antiga igreja dos jesuítas.

João Eudes foi beatificado por Pio X em 1909 e canonizado por Pio XI em 1925. Sua festa é celebrada em 19 de agosto.

Em 8 de novembro de 2014, durante a sessão plenária da Conferência dos Bispos da França, Dom Michel Dubost anunciou o apoio da Conferência à causa de São João Eudes como Doutor da Igreja. Em dezembro de 2016, Dom Luc Crépy, bispo de Le Puy-en-Velay, encontrou-se em audiência privada com o papa Francisco para apoiar a causa.

O patrimônio escrito

Manuscritos preservados

  1. Os estatutos e constituições da Congregação de Jesus e Maria; volume in-quarto de cerca de 600 páginas. A obra foi impressa em 1875, com modificações consideradas necessárias pelas Assembleias Gerais ou determinadas pela Sagrada Congregação dos Bispos e Regulares, que a aprovou em 18 de junho de 1874.
  2. O diretório com a explicação do Ofício Divino e de outras cerimônias dos mosteiros de Nossa Senhora da Caridade, segundo o das religiosas da Visitação; opúsculo de cem páginas in-quarto. Esse manuscrito serviu de base para o livro de costumes e o cerimonial de Nossa Senhora da Caridade, impresso em Caen, primeiro em formato in-oitavo, em 1682, e depois em in-quarto quadrado, em 1728.
  3. Memoriale Beneficiorum Dei, ou as principais graças que recebi de Deus por seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e por sua Santíssima Mãe; volume in-quarto de cinquenta páginas.
  4. Diversos opúsculos: O testamento do venerável padre Eudes; Voto ou elevações a Jesus na condição de vítima; Contrato de aliança com a Santíssima Virgem; Carta à Santíssima Virgem; Voto de obediência e de estabilidade; Voto de castidade para uma pessoa leiga; Voto do martírio, entre outros.
  5. Cartas ou fragmentos de cartas, num total de 156.
  6. Cartas: dez cartas inéditas publicadas em 1958 em Berthelot du Chesnay, C., Saint Jean Eudes. Textes choisis. Namur, Éditions du Soleil Levant, 1958. Sete delas são dirigidas à madre Mechtilde, Catherine de Bar.
  7. A vida admirável de Marie des Vallées e das coisas prodigiosas que nela aconteceram, um volume in-quarto. Uma cópia, infelizmente incompleta, foi encontrada na biblioteca da Universidade Laval, no Quebec, e publicada em 2013, no tomo XIII. Não se trata propriamente de um livro de São João Eudes, mas de uma coletânea de notas escritas sob o ditado de Marie des Vallées e organizadas para prestar contas ao bispo de Coutances, que lhe confiara seu acompanhamento espiritual. Ele nunca pretendeu publicar esse escrito; cópias, provavelmente imprecisas, foram feitas por seu secretário sem sua autorização. 

Pessoas apresentadas no dossiê histórico

Postuladores da causa

Dom Luc Crépy

Dom Luc Crépy, c.j.m.

O dossiê o apresenta como postulador da causa, responsável por reunir os elementos teológicos, espirituais e pastorais destinados ao discernimento da Igreja.

Irmã Marie-Françoise Le Brizaut

Irmã Marie-Françoise Le Brizaut, r.b.p.

Religiosa de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, foi vice-postuladora e trabalhou com Dom Luc Crépy. Faleceu em 28 de março de 2019.